Mulher nenhuma tem
poder sobre homem, não por ser mulher. Isso deveria ser óbvio, já
que vivemos em uma sociedade patriarcal, mas ainda tem que ser dito,
então, vamos lá. Vivemos em um sistema de gêneros, em que o gênero
masculino se beneficia, e o feminino é explorado, pro benefício do
gênero masculino. Na verdade, vivemos em um sistema de castas
sexuais, mas, pra efeito de simplificação, fiquemos com o termo
sistema de gênero mesmo.
Por outro lado, homens
têm poder sobre mulheres, inclusive o poder de as enlouquecer.
Homens manipulam mulheres, usam de gaslaite (ou gaslighting, em
inglês, que seria, resumidamente, fazer o outro acreditar que está
louco, ou fazer o outro acreditar que é culpado de algo, quando não
o é – e geralmente o culpado é quem fez o gaslaite.), fazem
chantagem emocional. Ah, mas mulheres fazem isso tudo também! Sim,
tentam, mas, como mulheres não têm poder sobre homens, e o
contrário sim, é falsa simetria dizer que é a mesma coisa.
Quando mulheres tentam
manipular homens, fazer gaslaite ou chantagem emocional, isso não
tem sobre homens o mesmo peso que quando homens fazem isso conosco.
Exatamente porque não temos sobre eles o poder que eles têm sobre
nós. Se um namorado diz que a namorada tá gorda, isso não tem o
mesmo peso (sem trocadilhos) que uma mulher dizer que o namorado está
gordo, porque estar fora dos padrões é muito mais difícil pra
mulheres, somos muito mais cobradas. Se um homem diz que vai se
separar da esposa (mesmo não tendo verdadeira intenção), isso tem
muito mais peso sobre a mulher do que ela dizer que vai se separar do
marido, porque mulheres aprendem que precisam de um homem, mas homens
não precisam de uma mulher. Em geral, uma mulher vai fazer qualquer
coisa quando o marido ameaçar se separar, enquanto o contrário
raramente acontece. Se um homem tenta colocar numa mulher a culpa por
algo que é culpa dele, a mulher aceitará essa culpa muito mais
facilmente que um homem, porque somos socializadas pra nos culparmos
mesmo por tudo, por todos os problemas do mundo.
Mas a prima da minha
vizinha manipula o marido direitinho! Não se trata de uma situação
individual, de esta ou aquela mulher conseguirem ter feito isso com
esse ou aquele homem, mas de uma questão de classe – ou casta.
Você pode até dizer que a prima da sua vizinha manipula direitinho
o marido, não importa. Eu até acredito que algumas mulheres tenham
sucesso individual em manipular homens, mas essa não é a norma na
nossa sociedade, como afirma o post. A norma é homens fazerem isso
com mulheres. É isso que é normalizado pra parecer natural, é
naturalizado pra que a gente não se revolte. Em outras palavras,
quando uma mulher tenta manipular um homem, ela é imediatamente
acusada de manipuladora, mas homens manipulam mulheres diariamente em
coisas que são consideradas “naturais” e, por isso, não são
questionadas. Quem nunca ouviu a célebre frase “homem é assim
mesmo”?
Exemplo: um homem trai
a esposa e as hipóteses que a sociedade tece são: 1. ela é frígida
ou ruim de cama; 2. alguma mulher o seduziu e ele não resistiu; 3.
homem tem mais instinto natural pra trair, porque precisa mais de sexo
que mulher, ou seja, homem não se controla. Uma mulher trai o marido
e as hipóteses que a sociedade tece são: 1. ela é safada e não
presta. Ou seja, das quatro hipóteses, a culpa é de uma mulher em
três. E a quarta hipótese, embora não culpe a mulher, retira a
culpa do homem. Assim, naturalizamos a noção de que “mulheres são
más e homens são indefesos”, logo são as mulheres que
enlouquecem os homens. Mas, se observarmos a história, a sociedade,
a política, em tudo, é o contrário que prevalece.
Então, não, mulheres
não enlouquecem homens, seja de raiva ou de amor. Aliás, quando um
homem diz que está “louco de amor”, em geral, ele fica “louco”
porque não consegue controlar aquela mulher, ou porque ela não quer
nada com ele. No final das contas, não tem nada a ver com amor, mas
com posse, propriedade, aquilo que todos os homens acham que podem
ter sobre todas as mulheres. A não ser que elas já “pertençam”
a outros homens, porque homem respeita a propriedade de outros.
Outros homens, óbvio.

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