domingo, 2 de agosto de 2015

JOGO DOS 7000 ERROS - 24-25


ERRO NÚMERO 24: ESTUPRO NÃO É PIADA

Acho que não precisava nem dizer essa também, mas vamos lá: fazer piada com estupro não pode e pronto. Não há qualquer argumento neste universo, e nem em nenhum universo paralelo onde o Flash possa viver, que sirva pra defender piada de estupro.

Mas, é só uma piada! Não, não é. Não existe “só uma piada”. Piadas são feitas, dentre outras coisas, pra naturalizar preconceitos. Não é por acaso que apenas grupos “minoritários” são alvo de piadas. Alguém já viu alguma piada começando com: um homem branco hetero entrou num bar...? Não, né? As únicas vezes em que são feitas piadas com o opressor são nas piadas de português feitas pelos brasileiros. Mas, de resto, as piadas são sempre feitas com os oprimidos. Não por acaso, a enorme maioria de comediantes é de homens brancos e heteros, que fazem piadas com mulheres e outros grupos. E ai daquele membro da classe oprimida que reclamar: será tachado de mal humorado. Por isso, muitos se calam. Por isso também, muitos até “riem junto”, pra parecerem descolados e bem humorados. Muitas vezes, pra ganhar uma migalha de simpatia do opressor, assim contribuindo pra sua própria opressão, através de piadinhas “inocentes”, que transformam diferenças em inferioridades.

No caso específico da piada aqui, é a típica piada de estupro, feita por homens, desde “gênios” como Woody Allen (em mais de um filme), até “humoristas” como Rafinha Bastos, passando por quase todos os homens do mundo. Homens não veem problema em fazer piada com estupro por um motivo muito simples: não são jamais eles que sofrerão as consequências da naturalização do estupro. Eles sempre estão do mesmo lado dessa piada, do lado do Flash, no caso. Eles nunca estão do lado da Mulher Maravilha.

Ah, mas homens também são estuprados! Ok, momento “pra não dizer que não falei dos homens”. Não tenho estatísticas aqui, mas certamente o número de vítimas de estupro homens não chega a 20%. Se tirarmos as crianças, então esse número diminui muito. Se tirarmos os homens portadores de deficiência, diminuirá mais ainda. Se tirarmos os que se encontram no sistema carcerário, mais ainda. As chances de um homem branco hetero e de classe alta ser estuprado é quase nula. Enquanto isso, as chances de uma mulher ser estuprada são sempre enormes, e maiores ainda se ela for criança, negra, pobre, portadora de deficiência. Do outro lado, mais de 90% dos estupradores são homens. Então, não, não me venha com falsa simetria, dizendo que homens também são estuprados, porque os poucos que são só são, porque “sobrou” pra eles um resquício da misoginia que a gente sofre todo dia.

Em geral, a maioria dos homens, mesmo os que não estupram, se beneficiam da cultura do estupro. Se beneficiam do medo que mulheres têm de andar sozinhas, pra estar sempre ao lado das namoradas/esposas (mas eles podem sair sozinhos sem problemas) e pra determinar o que elas podem vestir. Se beneficiam controlando suas filhas com mão de ferro, com a desculpa de que as estão defendendo de outros homens, quando, na verdade, só querem manter sua propriedade quietinha dentro de casa pra não dar trabalho. Se beneficiam quando se envolvem com mulheres que já foram estupradas e, devido ao trauma, podem ser mais submissas e manipuláveis. E quanto aos benefícios da cultura do estupro pra estupradores, então, acho que não preciso nem listar, né?

Se, ainda assim, você continuar achando que é “só uma piada” e que piadas não têm esse poder todo, então, não compartilhe essas coisas por outro motivo: empatia com as vítimas de estupro. São mais de 50 mil casos por ano, no Brasil. Casos relatados. Se considerarmos que muitos casos ainda não são relatados, que muitas mulheres sofrem caladas, então seriam muitos mais. Isso dá uma mulher sendo estuprada a cada dez minutos! Apenas no Brasil. Por volta de 1/5 das mulheres em idade adulta já foi estuprada. Você, homem, pode ter certeza: dentre as mulheres que você conhece, que estão adicionadas no seu face, sua mãe, irmãs, primas, amigas, colegas, dentre elas, pense que uma em cada 5 já passou por isso. Pense que elas verão essa piadinha na sua TL, e pense que, ainda que você não acredite que piadas naturalizam opressões, ver isso no face não faz nada bem pras mulheres que já passaram por esse trauma, faz com que elas revivam o trauma, faz com que elas se sintam novamente indefesas (afinal, até o pai, filho, primo, amigo posta piadinha sobre estupro no face). E, principalmente, faz com que elas minimizem a própria dor, porque afinal, se algo é tão banalizado a ponto de ser motivo de piada, ela que é fresca de estar sofrendo com isso, né?

ERRO NÚMERO 25: VIRGINDADE NÃO É PIADA

Tudo que foi dito acima, sobre piadas em geral, vale aqui também. Além disso, a especificidade agora é a virgindade, e não o estupro, algo que também só diz respeito às mulheres.

Ah, que isso! Homem também perde a virgindade! Não, não é só porque homens usam esse termo, “perder a virgindade”, que ele se refere a eles. Em primeiro lugar, homens não perdem nada quando fazem sexo pela primeira vez. Literalmente, eles não perdem nada mesmo, porque não têm um hímen, uma parte do corpo, que é usada pra determinar se eles já fizeram sexo ou não. Não que esse método seja eficaz pra determinar a virgindade de mulheres também, porque algumas não têm hímen, outras têm o complacente, outras o rompem antes mesmo de fazer sexo, de propósito ou sem querer, e outras optam por fazer sexo sem penetração (sim, existe sexo sem penetração, e não deixa de ser sexo por isso). E, no sentido figurado, homens também não perdem nada na primeira vez. Não perdem seu valor de “homens de respeito”. Não saem da lista dos “pra casar” em direção à lista dos “pra trepar”. Enfim, a virgindade masculina não é tabu e dificilmente é usada contra o homem.

Além disso, o que o Flash não sabe é que, mesmo sendo estuprada por ele, a Mulher Maravilha não deixou de ser virgem. Estupro não é sexo consensual, logo a mulher estuprada não deixa de ser virgem. Aquilo que ele fez com ela foi uma violência, não foi sexo, não foi a primeira vez dela, foi um momento que ela só vai querer esquecer. Muitos meninos adolescentes não sabem distinguir sexo de estupro. Em uma pesquisa feita com universitários americanos (http://www.independent.co.uk/news/world/americas/a-third-of-male-university-students-say-they-would-rape-a-woman-if-there-no-were-no-consequences-9978052.html), 31% deles disse que forçaria uma mulher a fazer sexo, se não houvesse consequências, enquanto apenas 13% disse que estupraria uma mulher. Ou seja, na cabeça de 18% de todos os universitários entrevistados “forçar uma mulher a fazer sexo” e “estuprar” são coisas diferentes! O que será que eles consideram estupro?!


Tendo em mente o que eles consideram “piada”, dá pra ter uma ideia do que imaginam sobre o resto do mundo!  

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