ERRO NÚMERO 24:
ESTUPRO NÃO É PIADA
Acho que não precisava
nem dizer essa também, mas vamos lá: fazer piada com estupro não
pode e pronto. Não há qualquer argumento neste universo, e nem em
nenhum universo paralelo onde o Flash possa viver, que sirva pra
defender piada de estupro.
Mas, é só uma piada!
Não, não é. Não existe “só uma piada”. Piadas são feitas,
dentre outras coisas, pra naturalizar preconceitos. Não é por acaso
que apenas grupos “minoritários” são alvo de piadas. Alguém já
viu alguma piada começando com: um homem branco hetero entrou num
bar...? Não, né? As únicas vezes em que são feitas piadas com o
opressor são nas piadas de português feitas pelos brasileiros. Mas,
de resto, as piadas são sempre feitas com os oprimidos. Não por
acaso, a enorme maioria de comediantes é de homens brancos e
heteros, que fazem piadas com mulheres e outros grupos. E ai daquele
membro da classe oprimida que reclamar: será tachado de mal
humorado. Por isso, muitos se calam. Por isso também, muitos até
“riem junto”, pra parecerem descolados e bem humorados. Muitas
vezes, pra ganhar uma migalha de simpatia do opressor, assim
contribuindo pra sua própria opressão, através de piadinhas
“inocentes”, que transformam diferenças em inferioridades.
No caso específico da
piada aqui, é a típica piada de estupro, feita por homens, desde
“gênios” como Woody Allen (em mais de um filme), até
“humoristas” como Rafinha Bastos, passando por quase todos os
homens do mundo. Homens não veem problema em fazer piada com estupro
por um motivo muito simples: não são jamais eles que sofrerão as
consequências da naturalização do estupro. Eles sempre estão do
mesmo lado dessa piada, do lado do Flash, no caso. Eles nunca estão
do lado da Mulher Maravilha.
Ah, mas homens também
são estuprados! Ok, momento “pra não dizer que não falei dos
homens”. Não tenho estatísticas aqui, mas certamente o número de
vítimas de estupro homens não chega a 20%. Se tirarmos as crianças,
então esse número diminui muito. Se tirarmos os homens portadores
de deficiência, diminuirá mais ainda. Se tirarmos os que se
encontram no sistema carcerário, mais ainda. As chances de um homem
branco hetero e de classe alta ser estuprado é quase nula. Enquanto
isso, as chances de uma mulher ser estuprada são sempre enormes, e
maiores ainda se ela for criança, negra, pobre, portadora de
deficiência. Do outro lado, mais de 90% dos estupradores são
homens. Então, não, não me venha com falsa simetria, dizendo que
homens também são estuprados, porque os poucos que são só são,
porque “sobrou” pra eles um resquício da misoginia que a gente
sofre todo dia.
Em geral, a maioria dos
homens, mesmo os que não estupram, se beneficiam da cultura do
estupro. Se beneficiam do medo que mulheres têm de andar sozinhas,
pra estar sempre ao lado das namoradas/esposas (mas eles podem sair
sozinhos sem problemas) e pra determinar o que elas podem vestir. Se
beneficiam controlando suas filhas com mão de ferro, com a desculpa
de que as estão defendendo de outros homens, quando, na verdade, só
querem manter sua propriedade quietinha dentro de casa pra não dar
trabalho. Se beneficiam quando se envolvem com mulheres que já foram
estupradas e, devido ao trauma, podem ser mais submissas e
manipuláveis. E quanto aos benefícios da cultura do estupro pra
estupradores, então, acho que não preciso nem listar, né?
Se, ainda assim, você
continuar achando que é “só uma piada” e que piadas não têm
esse poder todo, então, não compartilhe essas coisas por outro
motivo: empatia com as vítimas de estupro. São mais de 50 mil casos
por ano, no Brasil. Casos relatados. Se considerarmos que muitos
casos ainda não são relatados, que muitas mulheres sofrem caladas,
então seriam muitos mais. Isso dá uma mulher sendo estuprada a cada
dez minutos! Apenas no Brasil. Por volta de 1/5 das mulheres em idade
adulta já foi estuprada. Você, homem, pode ter certeza: dentre as
mulheres que você conhece, que estão adicionadas no seu face, sua
mãe, irmãs, primas, amigas, colegas, dentre elas, pense que uma em
cada 5 já passou por isso. Pense que elas verão essa piadinha na
sua TL, e pense que, ainda que você não acredite que piadas
naturalizam opressões, ver isso no face não faz nada bem pras
mulheres que já passaram por esse trauma, faz com que elas revivam o
trauma, faz com que elas se sintam novamente indefesas (afinal, até
o pai, filho, primo, amigo posta piadinha sobre estupro no face). E,
principalmente, faz com que elas minimizem a própria dor, porque
afinal, se algo é tão banalizado a ponto de ser motivo de piada,
ela que é fresca de estar sofrendo com isso, né?
ERRO NÚMERO 25:
VIRGINDADE NÃO É PIADA
Tudo que foi dito
acima, sobre piadas em geral, vale aqui também. Além disso, a
especificidade agora é a virgindade, e não o estupro, algo que
também só diz respeito às mulheres.
Ah, que isso! Homem
também perde a virgindade! Não, não é só porque homens usam esse
termo, “perder a virgindade”, que ele se refere a eles. Em
primeiro lugar, homens não perdem nada quando fazem sexo pela
primeira vez. Literalmente, eles não perdem nada mesmo, porque não
têm um hímen, uma parte do corpo, que é usada pra determinar se
eles já fizeram sexo ou não. Não que esse método seja eficaz pra
determinar a virgindade de mulheres também, porque algumas não têm hímen, outras têm o complacente, outras o rompem antes mesmo de
fazer sexo, de propósito ou sem querer, e outras optam por fazer
sexo sem penetração (sim, existe sexo sem penetração, e não
deixa de ser sexo por isso). E, no sentido figurado, homens também
não perdem nada na primeira vez. Não perdem seu valor de “homens
de respeito”. Não saem da lista dos “pra casar” em direção à
lista dos “pra trepar”. Enfim, a virgindade masculina não é
tabu e dificilmente é usada contra o homem.
Além disso, o que o
Flash não sabe é que, mesmo sendo estuprada por ele, a Mulher
Maravilha não deixou de ser virgem. Estupro não é sexo consensual,
logo a mulher estuprada não deixa de ser virgem. Aquilo que ele fez
com ela foi uma violência, não foi sexo, não foi a primeira vez
dela, foi um momento que ela só vai querer esquecer. Muitos meninos
adolescentes não sabem distinguir sexo de estupro. Em uma pesquisa
feita com universitários americanos
(http://www.independent.co.uk/news/world/americas/a-third-of-male-university-students-say-they-would-rape-a-woman-if-there-no-were-no-consequences-9978052.html),
31% deles disse que forçaria uma mulher a fazer sexo, se não
houvesse consequências, enquanto apenas 13% disse que estupraria uma
mulher. Ou seja, na cabeça de 18% de todos os universitários
entrevistados “forçar uma mulher a fazer sexo” e “estuprar”
são coisas diferentes! O que será que eles consideram estupro?!
Tendo em mente o que
eles consideram “piada”, dá pra ter uma ideia do que imaginam
sobre o resto do mundo!

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