Estupradores não são
monstros. São homens. São pais, filhos, irmãos, maridos de
mulheres como eu e você. Uma parcela ínfima dos estupradores são
psicopatas, que vivem isolados da sociedade, e poderiam ser
considerados “doentes” pela definição atual do que é ser
doente. Sabe aquele que vive naquela casa estranha da rua, na casa
que nenhuma criança gosta de passar na porta? Então, esses são uma
parcela mínima da população de estupradores. A enorme maioria são
homens comuns. Sabe o seu professor, aquele legal, que fala de
política e amor livre? Sabe o seu médico, aquele que é gentil
durante a consulta? Sabe o motorista do ônibus, aquele que te dá
bom dia todo dia? Enfim, sabe todos os homens que passam diariamente
pela sua vida? Então, estatisticamente uma parcela deles é, sim, de
estupradores. Não posso nem precisar quantos por cento. Essa
estatística não existe. Mas, saiba que, dentre o padeiro, o
vendedor da loja de celular, o taxista, o amigo do sindicato, o pai
da sua amiga, o primo da sua vizinha, o entregador das casas Bahia, o
técnico da net, o advogado trabalhista que te ajudou naquela causa
difícil, o médico especialista que foi o único que resolveu a dor
nas costas da sua mãe... Enfim, dentre todos os homens com quem você
convive diariamente, uma parcela deles é de: estupradores. Isso é
estatisticamente inegável quando consideramos que, no Brasil, mais
de 500 mil estupros acontecem todos os anos, e prevê-se que isso e
apenas 10% dos casos totais, que são os que chegam à polícia. Ou
seja, são cinco milhões de estupros por ano, 13 mil todos os dias.
Mas, eu não consigo
imaginar meu professor/médico/motorista de ônibus atrás de uma
moita esperando pra estuprar uma mulher na rua! E nem precisam. A
enorme maioria dos estupros também não acontece assim. Estupros
acontecem dentro de casa. Homens estupram as próprias esposas e
filhas e enteadas. Estupros acontecem em locais de trabalho, entre
chefes e empregadas, e entre colegas de trabalho. Estupros acontecem
em consultórios médicos. Estupros acontecem em táxis. E, num país
em que 65% da população concorda com a afirmação de que
“dependendo das roupas que estiver usando, a mulher é CULPADA pelo
próprio estupro”, não é difícil de entender que a enorme
maioria não acontece atrás da moita, na rua escura. Nesse momento,
alguma colega de classe sua está sendo estuprada pelo
pai/padrasto/irmão. Ou pelo namorado, que a “convenceu” de que
já está na hora de perder a virgindade. Nesse momento, alguma
colega de trabalho sua está sendo estuprada pelo próprio marido.
Nesse momento, pacientes estão sendo estupradas em consultórios.
Alunas estão sendo estupradas pelos próprios professores (que
fingem ignorar que sexo com menor de 14 anos é estupro EM QUALQUER
CASO). Nesse momento, amigas estão sendo estupradas por “amigos”
que não sabem ouvir não, e cresceram acreditando que quando mulher
diz não quer dizer sim.
Mas, pra que esse
alarmismo todo? Pra que assustar as mulheres com esses dados? Se os
dados assustam, é porque mostram um problema grave. Mas, a função
desse texto não é assustar ninguém, e sim alertar mulheres pra
pararem de se referir a estupradores como monstros, porque isso só
prejudica as vítimas. Que menina vai denunciar por estupro seu pai
ou padastro, aquele homem de bem, pilar da sociedade, se ela só
escutar, todo dia, que estupradores são monstros? Que aluna vai
denunciar o professor premiado internacionalmente e admirado por
todos na escola/faculdade, se ela sempre ouvir que estupradores são
monstros? Chamar estupradores de monstros, ou de doentes, só
colabora com a cultura do estupro e tira o foco, a culpa, a
responsabilidade dos verdadeiros culpados: HO-MENS!
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