sábado, 24 de outubro de 2015

ESTUPRADORES NÃO SÃO MONSTROS

Estupradores não são monstros. São homens. São pais, filhos, irmãos, maridos de mulheres como eu e você. Uma parcela ínfima dos estupradores são psicopatas, que vivem isolados da sociedade, e poderiam ser considerados “doentes” pela definição atual do que é ser doente. Sabe aquele que vive naquela casa estranha da rua, na casa que nenhuma criança gosta de passar na porta? Então, esses são uma parcela mínima da população de estupradores. A enorme maioria são homens comuns. Sabe o seu professor, aquele legal, que fala de política e amor livre? Sabe o seu médico, aquele que é gentil durante a consulta? Sabe o motorista do ônibus, aquele que te dá bom dia todo dia? Enfim, sabe todos os homens que passam diariamente pela sua vida? Então, estatisticamente uma parcela deles é, sim, de estupradores. Não posso nem precisar quantos por cento. Essa estatística não existe. Mas, saiba que, dentre o padeiro, o vendedor da loja de celular, o taxista, o amigo do sindicato, o pai da sua amiga, o primo da sua vizinha, o entregador das casas Bahia, o técnico da net, o advogado trabalhista que te ajudou naquela causa difícil, o médico especialista que foi o único que resolveu a dor nas costas da sua mãe... Enfim, dentre todos os homens com quem você convive diariamente, uma parcela deles é de: estupradores. Isso é estatisticamente inegável quando consideramos que, no Brasil, mais de 500 mil estupros acontecem todos os anos, e prevê-se que isso e apenas 10% dos casos totais, que são os que chegam à polícia. Ou seja, são cinco milhões de estupros por ano, 13 mil todos os dias.

Mas, eu não consigo imaginar meu professor/médico/motorista de ônibus atrás de uma moita esperando pra estuprar uma mulher na rua! E nem precisam. A enorme maioria dos estupros também não acontece assim. Estupros acontecem dentro de casa. Homens estupram as próprias esposas e filhas e enteadas. Estupros acontecem em locais de trabalho, entre chefes e empregadas, e entre colegas de trabalho. Estupros acontecem em consultórios médicos. Estupros acontecem em táxis. E, num país em que 65% da população concorda com a afirmação de que “dependendo das roupas que estiver usando, a mulher é CULPADA pelo próprio estupro”, não é difícil de entender que a enorme maioria não acontece atrás da moita, na rua escura. Nesse momento, alguma colega de classe sua está sendo estuprada pelo pai/padrasto/irmão. Ou pelo namorado, que a “convenceu” de que já está na hora de perder a virgindade. Nesse momento, alguma colega de trabalho sua está sendo estuprada pelo próprio marido. Nesse momento, pacientes estão sendo estupradas em consultórios. Alunas estão sendo estupradas pelos próprios professores (que fingem ignorar que sexo com menor de 14 anos é estupro EM QUALQUER CASO). Nesse momento, amigas estão sendo estupradas por “amigos” que não sabem ouvir não, e cresceram acreditando que quando mulher diz não quer dizer sim.


Mas, pra que esse alarmismo todo? Pra que assustar as mulheres com esses dados? Se os dados assustam, é porque mostram um problema grave. Mas, a função desse texto não é assustar ninguém, e sim alertar mulheres pra pararem de se referir a estupradores como monstros, porque isso só prejudica as vítimas. Que menina vai denunciar por estupro seu pai ou padastro, aquele homem de bem, pilar da sociedade, se ela só escutar, todo dia, que estupradores são monstros? Que aluna vai denunciar o professor premiado internacionalmente e admirado por todos na escola/faculdade, se ela sempre ouvir que estupradores são monstros? Chamar estupradores de monstros, ou de doentes, só colabora com a cultura do estupro e tira o foco, a culpa, a responsabilidade dos verdadeiros culpados: HO-MENS!  

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