Eu não sou a favor do
aborto. Eu sou a favor da
descriminalização do aborto e, principalmente, das mulheres que
abortam. Eu sou a favor da autonomia feminina nessa decisão, eu sou
a favor do estado, e da religião, e outras instituições machistas,
não mais legislarem sobre os corpos femininos. Se você acredita que
ser contra a legalização do aborto é uma questão de ser a favor
da vida, você está muito enganada. É uma questão de ser a favor
de ou contra mulheres, e você, mulher, está contra você mesma
nessa.
Mas, eu me cuido! Isso
nunca vai acontecer comigo! Olha, a não ser que você seja
celibatária com homens, você não pode dizer isso. Uma das
primeiras falácias a serem desfeitas a respeito do aborto é que
“mulheres que se cuidam” nunca vão precisar dele. O único
cuidado infalível nesse caso é não fazer sexo com homens. E, ainda
assim, você não estaria livre de ser estuprada e se ver nessa
situação. Métodos anticoncepcionais não são 100% seguros, nenhum
deles. E, embora a pílula, por exemplo, seja 97% segura, isso
significa que de cada 100 mulheres que você conhece que tomam
pílula, todo mês, três delas poderão engravidar, mesmo “se
cuidando” muito bem. A camisinha é ainda menos segura. Então,
muitas mulheres que “se cuidam” também se veem na situação de
uma gravidez indesejada. São milhões no mundo todo, todos os meses,
que “se cuidaram” direitinho e se encontram nessa situação.
Mas, é uma vida humana
que você está assassinando! Bom, isso já é uma questão de
crença. Segundo a ciência, não, um feto não é uma vida. Pode ser
que isso vá contra as SUAS crenças, a sua religião. Então, nesse
caso, não faça VOCÊ um aborto. Mas, outras mulheres não são
obrigadas a concordar com isso, principalmente se não há qualquer
evidência que comprove essa crença. Por mais difícil que seja pra
você, com seus princípios, aceitar isso, ninguém é obrigada a
concordar com você. Olha, não somos nem obrigadas a acreditar em
Deus! Então, se é necessário pro feto estar dentro de MIM durante
nove meses, cabe a mim decidir se EU vou querer que ele se desenvolva
até se tornar, enfim, uma vida.
Além disso, esse
argumento pró-vida cai por terra, quando sabemos que ninguém é
obrigado por lei a salvar a vida de ninguém, mesmo que aquela pessoa
seja a única possibilidade de salvação da outra. Se você for a
única pessoa compatível com alguém, seja pra doar sangue, medula,
um rim, parte do fígado, você não é obrigada a doar. Mesmo que os
médicos e as autoridades saibam que a única chance de sobrevivência
da outra pessoa seja a sua doação, não, você não poderá ser
obrigada a doar nada, pra ninguém. Todos assistirão a outra pessoa
morrendo, você mesma poderá assistir a outra pessoa morrendo, na
sua frente, sabendo que você é a única chance de sobrevivência
daquela outra pessoa, e, nem assim, ninguém poderá te obrigar a
doar nada. Em resumo, o único órgão ou parte do corpo humano sobre
o qual o estado pode legislar é o útero das mulheres. NENHUMA OUTRA
PARTE DO CORPO sofre a legislação do estado, apenas o útero. Isso
mostra que não é a vida que se protege, mas sim o corpo da mulher
que se invade.
Mas, você só tá aqui
pra dizer isso, porque tua mãe não te abortou. Óbvio, né? E nem
por isso eu seria contra o direito de decisão da minha mãe, se ela
tivesse me abortado. Eu simplesmente não existiria, não estaria
aqui e pronto. E isso não seria nem bom, nem ruim, seria
indiferente. Mas, grandes mulheres e homens poderiam não ter
nascido! Tá, mas daí eu também posso dizer que homens e mulheres
que foram péssimos pra humanidade também poderiam não ter nascido,
o que invalida totalmente esse argumento do “o que aquele ser que
não nasceu poderia ter sido”.
Mas, se
descriminalizar, o número de abortos subirá muito! Isso é MENTIRA!
As estatísticas indicam que a legalização leva a uma diminuição
nos casos de aborto, como aconteceu recentemente no Uruguai, que
descriminalizou o procedimento em 2012. Isso mostra que 1. mesmo
ilegal, as mulheres que não quiserem ter um filho não terão. Elas
farão o aborto ilegal, e colocarão a própria vida em risco, mas
não terão um filho indesejado simplesmente porque o aborto é
ilegal; 2. o argumento de que ser contra a legalização do aborto é
ser a favor da vida também é uma mentira, já que menos abortos
acontecem quando ele é legalizado e, além disso, menos mulheres
morrem em procedimentos ilegais mal feitos. Ou seja, mais fetos se
tornam vidas, e mais vidas de mulheres são poupadas. Isso ocorre
porque, junto com a legalização do aborto, no caso do Uruguai, veio
também uma lei de apoio e conscientização das mulheres que se
candidatam ao aborto legal. Não é só chegar no hospital e fazer e
ir pro shopping fazer compras depois. A mulher passa por uma série
de profissionais de saúde, recebe todas as informações
necessárias, e, só aí, decide se dará continuidade ao
procedimento ou não. Então, não, não vai ter mulher fazendo
aborto todo mês, como se diz por aí.
Sendo legal ou não, de
graça ou não, não será mais fácil pra nenhuma mulher essa
decisão, não se tornará algo que as mulheres gostarão de fazer,
ou farão por diversão. Transplante de coração é legal, e nem por
isso alguém curte ter que receber um coração novo, nem muito menos
as pessoas saem por aí propositalmente fazendo mal ao próprio
coração, só pra precisar de um transplante! Continuará existindo
o estigma, as mulheres continuarão sendo discriminadas na sociedade,
principalmente aquelas que praticam alguma religião monoteísta.
Além disso, continuará existindo o peso da decisão, do “e se eu
tivesse esse filho?”, o que ele poderia ser tornar etc. Continuará
existindo o peso de uma decisão que afeta a vida de várias pessoas,
e de um amontoado de células que poderia vir a ser uma pessoa. Me
arrisco a dizer também que, mesmo legalizado, mulheres ainda
passarão constrangimento, quando não violência mesmo, ao procurar
um hospital para abortar. Hoje, já é assim, nos casos de aborto
legal que existem no Brasil (em função de estupro, ou risco de vida
para a mãe, ou caso de bebês anencéfalos, ou que já estão mortos
dentro do útero). Em inúmeros casos, meninas e mulheres são
novamente “estupradas” pelo sistema, quando enfermeiros e médicos
duvidam de que elas tenham mesmo sido estupradas. Sofrem abuso verbal
e, às vezes, violência física durante o procedimento. E isso não
mudará da noite pro dia, se o aborto for legalizado em todos os
casos. “Profissionais” de saúde irresponsáveis e anti-éticos
continuarão agindo assim. Agem assim até com mulheres que chegam
com hemorragia ao hospital, quer por um aborto espontâneo, quer por
outros problemas no útero, só por pressuporem que a mulher é uma
“vadia aborteira” que não merece respeito. Então, a legalização
não trará a banalização do aborto, como se argumenta muitas
vezes, porque ainda haverá muita violência e abuso envolvidos na
realização de um aborto.
Principalmente, a
descriminalização aumentará a igualdade de chances entre mulheres
pobres, negras, periféricas e mulheres privilegiadas e brancas. Hoje
em dia, são as pobres, negras e periféricas que mais morrem em
abortos ilegais. Mulheres de condição financeira elevada podem
pagar mais, o que não garante melhor atendimento, já que é tudo
ilegal, mas em geral, sim, têm seus abortos feitos com mais
respeito. Muitas vão até pro exterior, pra países onde o aborto é
legal. Quem acaba morrendo em maior número, ou carregando sequelas
pro resto da vida, são as mulheres que não têm essa chance. Então,
ser contra a descriminalização do aborto é também uma atitude
racista e classista.
Também diminuirá, com
a descriminalização, a ação de quadrilhas ilegais que fazem
abortos. Muitas dessas quadrilhas é formada por homens, que, muitas
vezes, se declaram contra o aborto, afinal não querem perder a fonte
de renda! Em geral, não estão nem aí pro direito da mulher, ou pro
bem-estar dela. Só querem mesmo o dinheiro, que elas se virarão pra
pagar. Qualquer coisa ilegal, aliás, acaba gerando um mercado
paralelo, que não contribui com impostos, que “emprega” pessoas
ilegalmente, e que explora “clientes”, que não têm a quem
recorrer. E, no entanto, isso não impede que abortos continuem sendo
feitos, e que pessoas inescrupulosas continuem enriquecendo às
custas da ilegalidade. São quase um milhão de abortos, por ano, no
Brasil. Façam por alto as contas pra ver quantos homens e mulheres
estão enriquecendo ilegalmente nesse momento.
Se, com todos esses
argumentos, você ainda é contra a descriminalização do aborto,
pelo menos, tenha a decência de admitir que não tem nada a ver com
“direito à vida” o seu posicionamento. Admita que você é, na
verdade, contra mulheres terem poder de decisão sobre os próprios
corpos.
Se você é homem, isso
não é tão difícil de entender. Aliás, a enorme maioria daqueles
que se dizem contra a legalização do aborto são homens. Afinal,
mulheres que têm poder sobre si mesmas, e sobre seus corpos (até
onde isso é possível, na nossa sociedade, o que nunca é um poder
total), assustam os homens profundamente. Imagina o poder que
mulheres teriam, enquanto classe, de controlar a reprodução humana,
se não houvesse tantos tabus em torno dela! Mulheres controlando os
filhos que nasceriam, e DE QUE HOMENS nasceriam filhos também! Esse
é um poder que nenhum homem quer que mulheres tenham! Aliás, a base
da exploração feminina, no nosso sistema de castas sexuais, é
justamente a exploração da capacidade reprodutiva feminina, pelos
homens, pra manter seu poder de casta superior. Essa exploração é
fundamental pra manutenção do patriarcado e dos privilégios
masculinos. Ah, mas alguns homens são a favor a descriminalização
do aborto! Sim, e a maioria dos que se dizem a favor da legalização
do aborto só o são, porque sabem que, um dia, podem precisar dele
também, ao engravidar indesejadamente uma mulher. Muitos acreditam
que, se o aborto for legal, será um direito DELES, e eles poderão
OBRIGAR a mulher a abortar, ou poderão se recusar a assumir um filho
que a mulher não quiser abortar, pois não veem o aborto como um
direito das mulheres, nem conseguem conceber a autonomia feminina
nesse nível!
Se você é mulher, e é
contra a descriminalização, é compreensível também, pois somos
socializadas, em primeiro lugar, pra odiar nossos corpos. Em segundo
lugar, somos socializadas pra competir com outras mulheres e
odiá-las, e pra colocar homens acima de outras mulheres, e
consequentemente de nós mesmas, então quem aquela putinha aborteira
acha que é, pra abortar “o filho do Fulano”? Além disso, somos
também socializadas pra odiar mulheres que têm vida sexual “livre”,
que fazem sexo por prazer. Em quarto lugar, somos socializadas pra
não compreender mulheres que não querem ter filhos, pra as acharmos
inferiores àquelas que os têm. Mas, pasmem, segundo pesquisa feita
em 2010, pela UnB, 81% das mulheres que abortaram JÁ TÊM FILHOS!
Aborto não é sinônimo de ódio a crianças, ou nenhuma demonização
desse tipo. Enfim, se você é mulher e, mesmo sabendo de tudo que
sabe agora, ainda é contra o direito de outras mulheres – e olha,
é seu direito também, sabia, mesmo que, por motivos religiosos ou
quaisquer que sejam, você jamais venha a exercê-lo –, reveja seus
pensamentos, e procure entender se o que causa isso é mesmo um
profundo senso de “direito à vida” ou, na verdade, misoginia
internalizada tão fortemente, que você nem percebe que sua posição
nesse caso não é fruto de “amor à vida” e sim de “ódio às
mulheres” e, consequentemente, a você mesma.
Resumo da pesquisa realizada em 2010, pela UnB.
Então, mulher, seja
pessoalmente contra ou a favor do aborto, faça você um aborto ou
não, mas seja a favor dos direitos das mulheres, acima de tudo. Seja
a favor do fim do sequestro de nossos corpos, por um estado “laico”,
controlado majoritariamente por homens e altamente influenciado pela
religião. Enfim, seja a favor da vida das mulheres que morrem todos
os dias em clínicas clandestinas, única e exclusivamente por
ousarem querer mandar em seus próprios corpos. SEJA A FAVOR DA VIDA,
SEJA A FAVOR DA DESCRIMINALIZAÇÃO!

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