sábado, 4 de abril de 2015

A ALTURA DA ANGELINA, OS OVÁRIOS DA YOKO E A BUNDA DE TODAS NÓS

Semana passada, estive envolvida em três tretas online que tiveram em comum algo que só notei posteriormente: foram todas sobre o controle do corpo feminino. Uma “amizade” desfeita, uma mantida (unicamente porque a pessoa trabalha comigo) e mais uma mantida porque eu quis e pronto.

Treta número 1: Post sobre altura feminina. Comentei que achava machista e a amiga se irritou. Parei aí, por não querer perder essa amizade, porque é alguém com quem vale a pena conversar. E certamente porque, das três, foi a mais leve. Mas, mesmo “leve”, é pesada. O post classificava as mulheres em smurfs, anãs, normais e avatares. Alguém pode dizer, “tá reclamando porque é baixinha”. Não, pior que não. Descobri nesse post que, do “alto” dos meus 1,64, estou no limite da normalidade. Sou NORMAL! Do que estou reclamando então, oras? Reclamo de um post que classifica mulheres em NORMAIS e as outras.

Mas, ora, você pode dizer, o mesmo post poderia ter sido feito sobre homens, não? Poderia, mas não foi. E, se fosse, estaria errado também. No entanto, não estou aqui para falar de homens, que também sofrem com o controle do corpo, mas sofrem umas dez vezes menos. E, exatamente por isso, não vemos esse tipo de post sobre altura masculina, só feminina. Ninguém se dá ao trabalho de dizer que um homem com menos de 1,64 seria um anão. Alguém já viu esse post por aí? Não. Mas, sobre mulheres, tem aos montes. Sobre altura, sobre peso, sobre cabelos, sobre sobrancelhas, sobre unhas das mãos, sobre unhas dos pés (há diferenças!), sobre barriga, sobre nariz, sobre pés, até sobre buceta. Sim, existem posts sobre quais tipos de bucetas são mais ou menos bonitos. Sobre pênis, eu nunca vi.

E daí? E daí que esses posts não são piadas inofensivas, não são apenas para a gente rir, como faziam a amiga e outras amigas dela no tal post. A gente ri, brinca e tal. Mas, tem muita mulher e, pior, muita menina por aí que se desespera em ver que não é NORMAL segundo os padrões. Eu, quando ainda tinha “apenas” 1,58, sofria por achar que não chegaria a 1,60. E depois, sofria por ver que não passaria de 1,65. E as altas também sofrem, até porque existe aquela regrinha que o homem tem que ser mais alto que a mulher, então, quanto mais alta a mulher, menos homens disponíveis para cortejá-la. E, como, para ser alguém, a mulher precisa de um homem do lado (claro!), elas terão muito menos chances de encontrar a felicidade que nós, mulheres NORMAIS, temos. Eu, com 1,64, encontrei a felicidade num homem de 1,74, combinação perfeita. Mas, imagina se eu tivesse nascido avatar, como minha irmã, com 1,78! Jamais teria casado com o homem da minha vida! No fim das contas, TODA mulher sofre com esses padrões e, por isso, é tão deprimente ver mulheres compartilhando isso “apenas para rir um pouquinho”.

Treta número 2: os ovários da Angelina Jolie. Ontem fiquei sabendo que Angelina Jolie estava novamente nas manchetes, não com um filme, ou novo filho, ou projeto humanitário, mas uma nova cirurgia, dessa vez para retirar os ovários. E claro que fiquei sabendo disso através de um comentário preconceituoso, cheio de julgamento, de gente que não sabe, porque não quer saber, do que está falando. Para completar, o comentário foi seguido de piadas sobre retirar o coração porque tem histórico de infarto na família, e que para prevenir câncer, basta ter uma vida saudável.

Angelina Jolie tem histórico de cânceres de mama e ovários na família, tendo perdido a mãe, a tia e a avó assim. Atualmente, existem testes que provam se uma pessoa tem um gene (e não gen) de uma doença, o que é o caso dela para os genes desses dois cânceres. Não lembro de detalhes, mas basta buscar rapidamente no Google, que se encontra uma explicação clara dos nomes dos genes, de como eles atuam, e de como hoje se recomenda a cirurgia preventiva.

Apesar disso tudo, pessoas aleatórias ao redor do mundo, que nem conhecem Ms. Jolie, se acham no direito de acusar, julgar e condenar a atriz por se prevenir, já que estatisticamente as chances de ela desenvolver um desses cânceres são enormes. A reação foi a mesma há alguns anos quando ela removeu as mamas pelo mesmo motivo. Pergunto-me se, caso seu marido, Brad Pitt, passasse por cirurgia semelhante, haveria tanta condenação.

Não, não haveria. Provavelmente ele seria até exaltado como herói. O que está em jogo aqui é a mania, enfiada na cabeça de todos, e desconstruída por poucos até hoje, de se sentirem donos dos corpos das mulheres. De qualquer mulher, veja bem, não apenas aquelas conhecidas e próximas. Principalmente aquelas partes do corpo relacionadas à feminilidade e à reprodução. Aí vai a Dona Jolie e resolve mexer com os dois ao mesmo tempo? Como ousa?! É a mesma mania que dá a muitos o “direito” de se meterem no aborto alheio, e na gravidez alheia também, e até na vida de quem não quer filhos! Ou seja, nenhuma mulher escapa. Nem as que têm filhos. Nem as que abortam. Nem as que nunca engravidam. Nem a Angelina Jolie.

Muito menos a Angelina Jolie! Já não basta ela ter “roubado” o marido da Rachel, aquela fofa? Já não basta ser linda e milionária e casada com o Brad Pitt? Como ela ainda ousa retirar partes do corpo que não servem para absolutamente nada? Como ousar mexer com sua feminilidade de sex symbol? E com seu aparelho reprodutor? Ela “só” tem seis filhos! E se o marido quiser mais? E como fica o Brad Pitt sem os seios dela pra apalpar?

Em 1989, num sábado, morria Gilda Radner, atriz e comediante americana, que fez parte do elenco original do programa Saturday Night Life. Tinha 43 anos. Morreu de câncer no ovário, assim como várias mulheres de sua família. Na época, não havia teste genético, nem cirurgia preventiva. Se houvesse, seu talento ainda poderia estar aqui conosco, nos fazendo rir, e rir, pensando, o que não é fácil. Não teria nem 70 anos ainda. Angelina Jolie está chegando à idade em que Gilda morreu. E, para alguns, ela deveria deixar essa roleta russa rodando, e arriscar-se a morrer precocemente, deixando 6 filhos pequenos no mundo. Para serem criados pelo pai, que, claro, viraria o herói de toda a situação.

Muitos acreditam que Angelina Jolie deveria correr esse risco desnecessário, mantendo partes de seu corpo que não têm qualquer utilidade, além de satisfazer a necessidade alheia de controlar nossos corpos. O que essas pessoas não admitem é ver uma mulher com total controle sobre seu corpo, que não põe sua feminilidade ou reprodução acima de si mesma. Uma mulher que prefere prevenir o que pode ser prevenido, em vez de ficar doente e virar mártir depois. E o pior é ver muitas mulheres repetindo esse discurso. Eu acredito que essas pessoas poderiam mandar tirar seus cerébros, já que não os estão usando mesmo.  

Treta número 3: a bunda da Yoko Ono. Outra “amiga”, agora ex-amiga, postou aquela “piada” sobre nada ser pior que a bunda da Yoko. Eu nem ia comentar, porque, se a gente for comentar todos esses posts, não terá tempo para mais nada, então é saudável escolher as batalhas. Mas, como a prima da dona do post já tinha comentado, eu disse apenas que concordava com ela. Apareceram outras pessoas para discutir e, pronto, a treta tava armada. Eu pefiro nem entrar em treta, porque depois que entro... Mas, comprei a briga. Enfim, acabei excluindo a “amiga” e seguindo com a vida.

E por que a bunda da Yoko me levou a isso? A Yoko foi culpada pelo fim dos Beatles, nem merecia ser defendida. Claro, porque, afinal, quando quatro homens não conseguem ou não querem se manter juntos em uma banda, a culpa é de uma mulher, né, gente? Os Beatles estariam juntos até hoje, Lennon não teria sido assassinado (por um hmem), George não teria tido câncer e estariam tocando e gravando e fazendo shows, não fosse a Yoko aparecer na vida do John, aquela piranha japonesa! E é só uma bunda, afinal. Não, é só uma bunda DE MULHER. E ver outra mulher rindo de uma mulher por não se encaixar no padrão de beleza é, novamente, deprimente. Por quê? Porque TODAS NÓS, inclusive a tola que estava rindo, sofremos para alcançar esse padrão di-a-ria-men-te. E, o mais cruel: ninguém nos avisa que ele é inalcansável. Não podemos descansar um minuto, faltar um dia à academia, comer um chocolate, que a culpa ataca imediatamente. E, mesmo se resistimos à tentação, a culpa de ter pensado nisso também ataca. Podem acreditar. Sei do que estou falando. Cresci sendo “cheinha” e frustrada, mas desde os 18, foram tantas dietas, que já emagreci meu peso umas duas vezes. E ganhei todo de novo, claro. Perco peso fácil, fácil, mas se comer NORMALMENTE, ele volta. E olha que como muito pouco. É meu metabolismo e, só agora, com 37 anos, percebi que não adianta lutar contra. E, mais que isso, que não tenho por que lutar contra. Nunca me incomodei realmente com meu peso. O que sempre me incomodou foi meu pai falando que eu precisava emagrecer, as revistas falando que eu precisava emagrecer, o mundo me chamando de “gordinha”. Até essa primeira dieta, eu não usava blusa que não tivesse manga pelo menos até o cotovelo. No Rio de Janeiro! No Hell de Janeiro! E antes que a patrulha gordofóbica apareça, sempre fui saudável, ou melhor, o peso, que nunca foi muito acima do considerado NORMAL, nunca levou a nenhum problema de saúde. Exceto aos problemas psicológicos que eu tinha por não me sentir NORMAL.

Mas, homens também passam por isso! Tá, sempre temos que incluir os homens, né? Porque falar exclusivamente sobre mulheres é se vitimizar! Sim, homens passam por isso, mas não com a mesma intensidade. Eu cresci lendo Capricho. Alguém aí conhece alguma “revista masculina” como as revistas femininas que dominam as bancas? Não estou falando da Playboy. Alguém já viu revista masculina sobre como o corpo do homem deve ser para agradar as mulheres? Sobre as últimas dietas que vão te fazer perder 6 Kg em 2h30? Sobre a última moda que você não terá dinheiro para comprar, e ainda bem, porque não é adequada ao seu “tipo de corpo” mesmo (lembrando que, se você é gorda, nenhuma moda lhe servirá, só a plus size, se você não for enorme...)? E a publicidade? Uma coisa que sempre me intrigou... Por que modelos femininas são esquálidas e altíssimas – as plus size são mais magras que eu e as mignons chegam a ter 1,70 –, mas modelos masculinos se aproximam mais de um corpo de homem mediano? Nem tão magros, nem gordos, não muito musculosos, de altura mediana para um homem, com cabelo comum à maioria dos homens, com pele comum à maioria dos homens e sem nenhum padrão para os pelos do corpo, alguns mais, outros menos peludos, com ou sem barba. Não vou nem falar da indústria da beleza, e do fato que 90% dos produtos de beleza são para mulheres, porque só isso daria outro texto...


Em comum, essas três amigas com quem me confrontei têm o fato de serem professoras, terem graduação e pós-graduação, logo não se tratam de mulheres que compartilham essas coisas influenciadas por preconceitos religiosos, ou por não terem as ferramentas intelectuais para analisar melhor a informação e, principalmente o que está por trás dela. Muito pelo contrário, ao ser questionada, a ex-amiga respondeu do alto de sua arrogância de doutora em literatura e professora da UERJ, que eu e a prima dela estávamos exagerando e que não temos senso de humor. Na verdade, parece que, para algumas mulheres, quanto mais elas conquistam o sucesso profissional, e mais se “aproximam” dos homens, menos interessam a elas as questões femininas e feministas, como se elas pudessem evitar sofrer misoginia só porque, profissionalmente, alcançaram o “sucesso masculino”. Newsflash para vocês que pensam e agem assim: você é mulher também, amiga! A misoginia vai te alcançar, cedo ou tarde, mesmo com você rindo de quem luta contra ela. Quando você fala sobre a bunda da Yoko ou os ovários da Angelina, você está falando de TODAS NÓS. (Não, eu não errei por distração no título deste texto.) Está ajudando a perpetuar um padrão inalcançável de beleza, a perpetuar a paranoia na cabeça de todas que lerem aquilo e não virem apenas como uma piada (e mesmo na das que veem como piada). Eu sei bem, porque já fui assim, mas isso é assunto para outro texto...  

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