Eu sempre quis ter um
irmão. Sempre achei que me faltava essa relação, que a sorte ma
tinha roubado. Não sou filha única. Tenho duas irmãs. Mas, achava
que me faltava um irmão HOMEM. Sei lá eu o que eu pensava que
falaria pra ele, ou faria com ele, que eu não poderia falar ou fazer
com minhas irmãs.
Nunca fui amiga das
minhas irmãs. A Média é três anos mais nova que eu, então
brincamos muito juntas, trocamos muito papel de carta, enrolei muito
ela pra levar vantagem nas trocas, mas na adolescência nos
distanciamos bastante – o máximo que dá pra ser distante de
alguém que vive no mesmo espaço e que a sua mãe a obriga a levar
pros lugares. A Pequena é nove anos mais nova, então a amizade já
foi dificultada pela diferença de idade. Mas, nem uma irmã mais
velha e madrinha eu fui. Tava ocupada demais puxando saco dos homens,
tentando fazer amizade com eles ou impressioná-los.
A competição sempre
estimulada entre as mulheres – pra ser a mais bonita, a que teve
mais namorados, a mais popular – não ajudou em nada. A Média já
tinha namorado muito antes de mim, três anos mais velha, e isso só
me fazia sentir ainda mais rejeitada pelo mundo. E provavelmente
fazia ela se sentir incrível, afinal havia superado sua irmã mais
velha. Ela era magra, eu, gorda. Ela, extrovertida. Eu, tímida. Ela,
inteligente. Eu, também. Mas, que menina quer ser reconhecida pela
inteligência na adolescência?
Quanto à Pequena,
nunca tive aquela relação de irmã mais velha, quase tia, com ela,
porque nunca fui daquelas meninas que adoram brincar de mãe com as
crianças mais novas. Eu já tinha uma noção de que jamais teria
filhos, embora não fosse ainda uma ideia formada. Eu não ligava pra
bebês como a enorme maioria das meninas, que se “derrete” ao ver
um bebê, quer pegar no colo etc. Daria no mesmo se ela fosse um
menino? Provavelmente, mas quero dizer que nossa amizade foi
dificultada por eu evitar desempenhar esse papel tipicamente
feminino, justamente porque eu fazia o possível pra não ser vista
como mulher, fazia o possível pra que me respeitassem “como a um
homem”. Também não tinha um pingo de sororidade com minha mãe,
não tinha consciência de que ela tinha três filhas pra criar
praticamente sozinha porque pai que é pai só paga as contas, e olhe
lá!
Hoje, nossa relação é
ótima. Só passou a ser assim depois de adultas, bem recentemente. A
Média ainda precisa parar de reproduzir machismo, porque né,
vergonha alheia de irmã é muito triste. A Pequena já tá
encaminhada no feminismo. Peço desculpas a elas por não ter sido
uma irmã como deveria ser. Mas, ainda há tempo de acertar isso. E
hoje tenho muitas outras irmãs, irmãs de luta, feministas como eu.
SORORIDADE, palavra-chave no feminismo. Mas, isso já é assunto pra
outro texto...
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