sábado, 11 de abril de 2015

PEQUENA, MÉDIA E GRANDE

Eu sempre quis ter um irmão. Sempre achei que me faltava essa relação, que a sorte ma tinha roubado. Não sou filha única. Tenho duas irmãs. Mas, achava que me faltava um irmão HOMEM. Sei lá eu o que eu pensava que falaria pra ele, ou faria com ele, que eu não poderia falar ou fazer com minhas irmãs.

Nunca fui amiga das minhas irmãs. A Média é três anos mais nova que eu, então brincamos muito juntas, trocamos muito papel de carta, enrolei muito ela pra levar vantagem nas trocas, mas na adolescência nos distanciamos bastante – o máximo que dá pra ser distante de alguém que vive no mesmo espaço e que a sua mãe a obriga a levar pros lugares. A Pequena é nove anos mais nova, então a amizade já foi dificultada pela diferença de idade. Mas, nem uma irmã mais velha e madrinha eu fui. Tava ocupada demais puxando saco dos homens, tentando fazer amizade com eles ou impressioná-los.

A competição sempre estimulada entre as mulheres – pra ser a mais bonita, a que teve mais namorados, a mais popular – não ajudou em nada. A Média já tinha namorado muito antes de mim, três anos mais velha, e isso só me fazia sentir ainda mais rejeitada pelo mundo. E provavelmente fazia ela se sentir incrível, afinal havia superado sua irmã mais velha. Ela era magra, eu, gorda. Ela, extrovertida. Eu, tímida. Ela, inteligente. Eu, também. Mas, que menina quer ser reconhecida pela inteligência na adolescência?

Quanto à Pequena, nunca tive aquela relação de irmã mais velha, quase tia, com ela, porque nunca fui daquelas meninas que adoram brincar de mãe com as crianças mais novas. Eu já tinha uma noção de que jamais teria filhos, embora não fosse ainda uma ideia formada. Eu não ligava pra bebês como a enorme maioria das meninas, que se “derrete” ao ver um bebê, quer pegar no colo etc. Daria no mesmo se ela fosse um menino? Provavelmente, mas quero dizer que nossa amizade foi dificultada por eu evitar desempenhar esse papel tipicamente feminino, justamente porque eu fazia o possível pra não ser vista como mulher, fazia o possível pra que me respeitassem “como a um homem”. Também não tinha um pingo de sororidade com minha mãe, não tinha consciência de que ela tinha três filhas pra criar praticamente sozinha porque pai que é pai só paga as contas, e olhe lá!


Hoje, nossa relação é ótima. Só passou a ser assim depois de adultas, bem recentemente. A Média ainda precisa parar de reproduzir machismo, porque né, vergonha alheia de irmã é muito triste. A Pequena já tá encaminhada no feminismo. Peço desculpas a elas por não ter sido uma irmã como deveria ser. Mas, ainda há tempo de acertar isso. E hoje tenho muitas outras irmãs, irmãs de luta, feministas como eu. SORORIDADE, palavra-chave no feminismo. Mas, isso já é assunto pra outro texto...  

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