quarta-feira, 22 de abril de 2015

SORORIDADE, PRA QUE TE QUERO?

A ideia de SORORIDADE, irmandade entre mulheres, pode ser linda, mas também pode ser problemática. Esta semana mesmo, vivi uma situação que mostrou isso nitidamente. Num debate sobre mulheres brancas problematizando misoginia de homens negros, acabei exercendo meu racismo sobre mulheres negras sem perceber. Tomei uma chamada, enfiei a viola no saco e, daqui pra frente, espero não cometer o mesmo erro de sinhá novamente, e não exercer o racismo que me é latente. Então, amigas brancas, este texto é pra vocês, até porque não tenho lugar de fala pra falar pras minas negras.

Ao querer reunir todas as mulheres sob uma irmandade, assim como os homens têm sua brotheragem, não podemos jamais perder de vista que a opressão de gênero tem também recortes de raça e classe. Eu, como branca e classe média, que nunca sofri racismo, ou discriminação pela minha classe, vejo nitidamente a opressão de gênero como mais profunda na nossa sociedade que todas as outras opressões. Mas, não posso jamais exigir que uma mulher negra e/ou pobre pense exatamente como eu. Pra mim, é óbvio que o inimigo a ser combatido é o patriarcado, mas muitas irmãs têm que lutar também contra o racismo e o classismo. Para que nós, mulheres brancas/ricas, não acabemos sendo opressoras de outras, a ideia de sororidade não deve jamais se tornar um universalismo excludente, pelo qual a condição de mulher se sobreponha à condição de negra ou pobre. Que fique claro que esse é o meu entendimento, que nem toda mulher branca/rica pensará assim.

Ao exigir sororidade de uma mulher negra numa disputa entre um homem negro e uma mulher branca, somos racistas. Agora entendo melhor que a mulher negra fica num dilema entre se unir a homens negros na luta contra o racismo, ou se unir a mulheres brancas, na luta contra o machismo. E, em ambos os casos, acaba tendo sua condição de duplamente oprimida ignorada: o homem negro diz pra ela que lutar contra o racismo é mais importante que contra o machismo, e a mulher branca diz que lutar contra o machismo é mais importante que contra o racismo. O mesmo vale pra mulheres pobres lutando contra o classismo.

E não adianta nem vir com a justificativa que, durante o debate, eu não sabia quem era negra e quem era branca, porque no meu celular não dá pra ver a foto de quem tá comentando. Não saber já é consequência do meu racismo, é não dar a devida atenção às especificidades de cada mulher, é ignorar que nem todas têm os mesmos privilégios que eu (de branca e rica), é universalizar a condição de mulher, e apagar as vivências específicas de quem é mulher, mas é também negra e/ou pobre.


Então, nós, mulheres brancas, privilegiadas, não podemos exigir sororidade de mulheres cuja opressão vai além do machismo. Vejo agora mais nitidamente que elas não têm qualquer obrigação de colocarem sua luta contra o machismo acima da luta contra outras opressões. Cabe a elas decidir como vão lutar, e junto a quem. Desconstruir o machismo deve incluir também a deconstrução de outros sistemas de poder, se não quisermos incorrer nos mesmos erros que queremos combater. Construir a SORORIDADE é também respeitar as diferenças e respeitar o tempo de cada mulher, com suas vivências e especificidades.  

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