A ideia de SORORIDADE,
irmandade entre mulheres, pode ser linda, mas também pode ser
problemática. Esta semana mesmo, vivi uma situação que mostrou
isso nitidamente. Num debate sobre mulheres brancas problematizando
misoginia de homens negros, acabei exercendo meu racismo sobre
mulheres negras sem perceber. Tomei uma chamada, enfiei a viola no
saco e, daqui pra frente, espero não cometer o mesmo erro de sinhá
novamente, e não exercer o racismo que me é latente. Então, amigas
brancas, este texto é pra vocês, até porque não tenho lugar de
fala pra falar pras minas negras.
Ao querer reunir todas
as mulheres sob uma irmandade, assim como os homens têm sua
brotheragem, não podemos jamais perder de vista que a opressão de
gênero tem também recortes de raça e classe. Eu, como branca e
classe média, que nunca sofri racismo, ou discriminação pela minha
classe, vejo nitidamente a opressão de gênero como mais profunda na
nossa sociedade que todas as outras opressões. Mas, não posso
jamais exigir que uma mulher negra e/ou pobre pense exatamente como
eu. Pra mim, é óbvio que o inimigo a ser combatido é o
patriarcado, mas muitas irmãs têm que lutar também contra o
racismo e o classismo. Para que nós, mulheres brancas/ricas, não
acabemos sendo opressoras de outras, a ideia de sororidade não deve
jamais se tornar um universalismo excludente, pelo qual a condição
de mulher se sobreponha à condição de negra ou pobre. Que fique
claro que esse é o meu entendimento, que nem toda mulher branca/rica
pensará assim.
Ao exigir sororidade de
uma mulher negra numa disputa entre um homem negro e uma mulher
branca, somos racistas. Agora entendo melhor que a mulher negra fica
num dilema entre se unir a homens negros na luta contra o racismo, ou
se unir a mulheres brancas, na luta contra o machismo. E, em ambos os
casos, acaba tendo sua condição de duplamente oprimida ignorada: o
homem negro diz pra ela que lutar contra o racismo é mais importante
que contra o machismo, e a mulher branca diz que lutar contra o
machismo é mais importante que contra o racismo. O mesmo vale pra
mulheres pobres lutando contra o classismo.
E não adianta nem vir
com a justificativa que, durante o debate, eu não sabia quem era
negra e quem era branca, porque no meu celular não dá pra ver a
foto de quem tá comentando. Não saber já é consequência do meu
racismo, é não dar a devida atenção às especificidades de cada
mulher, é ignorar que nem todas têm os mesmos privilégios que eu
(de branca e rica), é universalizar a condição de mulher, e apagar
as vivências específicas de quem é mulher, mas é também negra
e/ou pobre.
Então, nós, mulheres
brancas, privilegiadas, não podemos exigir sororidade de mulheres
cuja opressão vai além do machismo. Vejo agora mais nitidamente que
elas não têm qualquer obrigação de colocarem sua luta contra o
machismo acima da luta contra outras opressões. Cabe a elas decidir
como vão lutar, e junto a quem. Desconstruir o machismo deve incluir
também a deconstrução de outros sistemas de poder, se não
quisermos incorrer nos mesmos erros que queremos combater. Construir
a SORORIDADE é também respeitar as diferenças e respeitar o tempo
de cada mulher, com suas vivências e especificidades.
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