quarta-feira, 15 de abril de 2015

SORORIDADE > FRATERNIDADE

Liberdade. Igualdade. Fraternidade. Já perceberam o quão machista é esse lema? Não? Talvez por não saberem, ou não se atentarem para o fato de que fraternidade diz respeito a irmãos. Homens. Ou seja, homens se unem em torno de um ideal, homens mudam o mundo fazendo a revolução francesa. Mulheres são desunidas e só servem pra dizer que, se o povo não tem pão, que coma brioche. A palavra pra mulheres que se unem, pra irmandade entre mulheres, é SORORIDADE. Não, você não vai encontrá-la nos dicionários. Ela nem existe no português “oficial”. Ah, mas, no português, generaliza-se no masculino, logo fraternidade inclui mulheres também. Sim, mas isso só reflete como nossa língua é machista, ainda mais que o inglês, por exemplo, em que não se generaliza no masculino. Mas, mesmo no inglês, a palavra “sorority” só existe no dicionário pra se referir às repúblicas universitárias femininas. Já “fraternity” é usada pra repúblicas masculinas E TAMBÉM pra se referir ao sentimento de irmandade. ENTRE BROTHERS. IRMÃOS. HOMENS.

Parece uma bobagem. É “só” uma palavra. Não, não é só uma palavra. A língua ajuda a construir o mundo. E também o reflete. Não é à toa que esquimós têm sei lá quantas palavras pra dizer “branco”. Não é à toa que as línguas ocidentais – e suponho que as orientais também – reflitam a “falta de união” entre mulheres. Então, é porque mulheres são desunidas mesmo, oras! Porque já nascem assim, invejosas, ciumentas, sem capacidade de se mobilizarem pelo bem comum, egoístas, só pensam em si! Não, vamos tentar de novo.

Não há nada na biologia feminina que leve à conclusão de que mulheres são assim mesmo. E muito menos há algo natural que justifique que homens são mais unidos. Homens são criados, socializados, pra serem parceiros, amigões, “irmãos”. Observei outro dia que meu marido chama qualquer homem de irmão, desde o entregador de pizza até o próprio irmão mesmo. Nunca vi mulher chamar outra de irmã fora do feminismo ou da própria família. Ou de um convento. Mulheres são socializadas pra competirem entre si, pra se odiarem. E por quê? Pelo prêmio máximo: o omi! Meninas aprendem desde cedo que “fulana roubou o marido da cicrana”. Já viram alguém dizendo que “fulano roubou a mulher de cicrano”? Não, nesse caso, dizem: “a vagabunda da beltrana trocou o fulano pelo cicrano, melhor amigo dele”. E a amizade nem é abalada, afinal, irmãos não se separam por causa de mulher. Mas, mulheres entram em guerra por causa de omi. Há dezenas de comédias americanas sobre isso, sobre mulheres de todas as idades. E há também Meninas Malvadas, que, olhando pro cartaz, parece só mais uma comédia imbecilizante americana, e se não tivesse o dedo mágico de Tina Fey, provavelmente seria mesmo.

No filme, a recém-chegada personagem da Lindsay Lohan, que nunca tinha pisado numa escola antes, pois tinha sido educada em casa, só se enturma com a Janis e o amigo gay dela (não me perguntem os nomes dos atores!), que também são deslocados de todos os outros alunos. Eles bolam um plano pra Lindsay se enturmar na panelinha da personagem da Rachel McAdams, linda, magra e loira. Da panelinha fazem parte a Claudia, de Party of Five, e a Amanda Seyfried (não me perguntem os nomes das personagens!). Basicamente, elas são as meninas mais lindas da escola, desejadas por todos os garotos, e odiadas por todas as meninas. E o plano levaria os três amigos a desmascará-las. Depois de muito vai e vem, a Lindsay se enturma, mas acaba gostando da coisa, e abandona os verdadeiros amigos, além de se tornar a Abelha Rainha, líder da panelinha, depois de fazer a antiga rainha engordar e se tornar “largada”. E ser automaticamente largada pelas amigas e todos os admiradores. Acontece mais um monte de coisa, a Lindsay percebe que, se tornando a rainha, não é menos ruim que a antiga, o que a leva a compartilhar a coroa de rainha do baile com todas as meninas. Literalmente. Ela quebra a coroa e distribui os pedaços. Happy ending.


(Vocês precisam parar de se referirem umas às outras como vadias e putas. Isso só torna ok para os caras chamarem vocês de vadias e putas.) 

O filme não é mais um besteirol americano, embora se pareça com um visualmente. É um filme de mulheres, sobre mulheres e com uma mensagem clara pras mulheres: ao lutarem umas contra as outras, vocês só estão lutando contra si mesmas. Ao chamar outras meninas de gordas, você se coloca como alvo pra ser chamada de qualquer coisa relativa ao seu peso. E, mesmo que você esteja “em forma”, vão dar um jeito de falar, vão dizer que está magra demais, que é anoréxica; se for musculosa demais, dirão que parece um homem etc. Não tem como fugir. Nem a Gisele Bündchen escapa. Ao chamar outras meninas de vadias, você só abre as portas pra julgarem sua vida sexual. E, se você não tiver uma, pra tirarem sarro da falta dela. Ao chamar outras meninas de “loiras burras”, você permite que a inteligência de uma mulher seja avaliada de acordo com a cor do cabelo e não com suas habilidades e talentos. E não adianta pintar o cabelo de preto! Porque loira burra pode ser morena, ruiva, careca...

Falando em filmes, outro em que reina a SORORIDADE é Malévola. Depois de passado o incômodo inicial com aquele visual modernoso computadorizado, adorei o filme. Malévola é uma fada que se torna amiga, e depois namorada, de um humano. Ele a engana e arranca-lhe as asas pra dá-las ao rei, inimigo de Malévola. Ela, traída e sem asas, se torna amarga e vingativa, colocando um feitiço na filha recém-nascida do ex, agora rei. Pelo tal feitiço, a menina viveria linda e feliz e saudável até os dezesseis anos, quando espetaria o dedo em um roca de fiar (se não fosse essa história, nem saberíams mais o que é isso!) e dormiria um sono profundo, até que recebesse um verdadeiro beijo de amor. Na verdade, o feitiço é capcioso: Malévola sabe que não existe verdadeiro beijo de amor, e o pai de Aurora também sabe, logo sua filha estaria condenada a dormir pra sempre. Aí, o pai, muito preocupado com a segurança da filha e ignorando completamente a mãe da menina, manda a criança pra uma casa no bosque, pra ser criada por três fadas completamente incapazes de cuidar de uma criança, pra dizer o mínimo. No fundo, sua preocupação maior é não permitir que Malévola vença, ele está pouco ligando pra segurança da menina, já que as fadas poderiam ter acabado levando-a à morte muito antes dos dezesseis anos! Até aí, é a clássica história da Bela Adormecida.

Mas, a partir daí, a coisa muda. A princípio, é Malévola quem salva Aurora constatemente, sempre apenas pra depois poder ver seu feitiço se completar, mas Aurora acaba acreditando que Malévola é sua fada madrinha, e a fada não a desmente. Malévola acaba gostando da menina, apesar do pai, mas não consegue desfazer seu próprio feitiço. A profecia se cumpre e Aurora cai no sono, quando já havia descoberto que seu pai estava vivo e sabendo do feitiço. Nessa altura, a mãe da menina já morrera. Assim, as três fadas-patetas são chamadas novamente pra cuidar da menina, agora em seu quarto no castelo. Aí vem a melhor cena do filme. Aparece um príncipe-bocó de um reino vizinho e as fadas-patetas acham que é a salvação da menina. Na verdade, Malévola o levara até o castelo, achando que seria a salvação, apesar de não acreditar em beio de amor verdadeiro. As fadas-patetas empurram o príncipe pra cima de Aurora, ele mal tem tempo de dizer que não pode beijá-la, pois mal a conhece. E nesse ponto eu já tava p da vida de ver essa cena de beijo sem consentimento. Mas, o que vem a seguir vale a pena. O príncipe beija Aurora, nada acontece, as três fadas (que a essa altura já ganharam minha simpatia) o jogam, literalmente, pra fora do quarto. Ele cai no chão com aquela cara de bocó que nem entendeu o que tinha acontecido. Aí entra Malévola no quarto, pra pedir perdão a Aurora, e é seu beijo que a acorda. Alguns imbecis pelo mundo acharam que a cena era lésbica! Acordem, seus tarados! O beijo não é lésbico, é o beijo da SORORIDADE. É o beijo de uma mulher que, por raiva de um homem, deseja mal a outra mulher que não tem nada a ver com isso, nesse caso, que não era nem nascida. É um beijo de arrependimento, ao se dar conta da tamanha burrada que havia feito. Bom, Aurora acorda, Malévola recupera suas asas, mata o rei, e Aurora passa a governar o reino. Happy ending.



No entanto, nem tudo são flores. Ambos os filmes são frutos de Hollywood, que descobriu agora o filão do feminismo e resolveu capitalizar em cima. Não podemos perder isso de vista. Além disso, ou melhor, talvez por isso, concessões são feitas em ambos os filmes e a pior delas é: tudo ainda gira em torno da busca de um parceiro pela mulher. Em Meninas Malvadas, além desse título duvidoso, a Lindsay e a Rachel disputam o macho, um tal de Aaron, de quem eu nem lembro no filme, com sinceridade. Mas, é por ele que a disputa das duas começa e, no final, a Lindsay fica com ele. É o prêmio por ela ter sido uma boa moça, por ter dividido a coroa de rainha com todas etc. Em Malévola, o príncipe-bocó aparece na cena final, sorrindo pra Aurora, e ela responde com um sorriso. Fica implícito que eles ficarão juntos. Acredito que ambos os filmes seriam muito melhores e coerentes sem essa concessão. E, acredito que precisamos de filmes que tenham pontos de partida diferentes. Ambos os filmes partem do pressuposto machista tradicional que: toda mulher só será feliz com um homem ao seu lado. E ambos fazem concessões em relação a isso no final. Seriam melhores se 1. não fizessem essas concessões; e 2. melhores ainda se partissem de outro pressuposto. Mas, Hollywood precisa agradar a todos, inclusive as moçoilas casadoiras que ainda acreditam em príncipe encantado e amor romântico. De qualquer forma, é um começo. Precisamos de mais filmes assim, ainda que eles só estejam querendo nosso dinheiro. Por coincidência, ontem estava passando a animação da Bela Adormecida, a original, de 1959. Crescer vendo mulheres retratadas daquela maneira é e foi prejudicial pra muitas de nós, mas felizmente as próximas gerações parece que terão melhres modelos a seguir, se o filão feminista continuar dando dinheiro, claro. Eu espero que sim. As meninas merecem. Mas, não adianta nada, se paralelamente não se ensinar às meninas que elas são irmãs e não inimigas. Precisamos construir conscientemente para nós o que os homens constroem espontaneamente desde o berço, a tal “brotheragem”, mas com seu nome certo: SORORIDADE.


Também sei que a SORORIDADE não é assim tão linda quanto mostram os filmes, que há muito a ser problematizado. Ambos os filmes são feitos por pessoas brancas, com quase apenas atores brancos, num mundo classe média alta. Mas, é um começo. E isso é assunto pra outro texto...  

2 comentários:

  1. Amei o texto! Muito bem colocado a questão da sororidade vs fraternidade e a análise dos filmes... Escreva mais vezes :(

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  2. Me ajudou muito no meu trabalho, parabéns moça!

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