domingo, 5 de abril de 2015

ELOGIOFENSAS

Eu já reproduzi machismo, porque achava que estava acima disso, que ele não me atingia. Que sendo uma mulher “diferente das outras”, que a misoginia não era sobre mim, mas só sobre “as outras”. Que bastava eu ter um senso de humor “masculino”, rir junto com os homens, que as piadas não seriam sobre mim. Que bastava eu não cair nas armadilhas que a maioria das mulheres caía, que eu poderia escapar desse destino. Eu passei a vida inteira achando que dava pra fugir dessa condição inexoravelmente imposta no berço (e hoje, até antes, na ultrassonografia).

E por que tanta negação? A gente cresce escutando que mulher não é amiga de verdade, que os melhores amigos são os homens. Que não se pode confiar em mulher, são traiçoeiras que, cedo ou tarde, te trairão, contarão seus segredos, ou inventarão coisas sobre você. Não viram o que a Eva fez com o coitadinho do Adão? Não fosse aquela serpente e a cobra da Eva, Adão ainda estaria vivendo no paraíso. Escutamos que, se um dia houver um homem entre você e sua amiga, que a amizade acabará, mas que um homem jamais trocaria um amigo por uma mulher. É a mulher que “rouba” o marido da outra, e não o marido que trai sua esposa. Crescemos ouvindo isso e acabamos acreditando.

Nos ensinam também que os melhores professores são os homens, os melhores médicos também, os melhores escritores, motoristas... Quando uma mulher se destaca em qualquer uma dessas profissões, é porque trabalha “como um homem”! “Fulana é ótima escritora, escreve como homem.” A Clara já falou sobre isso, aqui: http://lugardemulher.com.br/escrever-como-um-homem-nao-obrigada/. Elogio torto. Elogiofensa. Ao dizer que você faz qualquer coisa “como um homem”, isso não é elogio a você, é uma ofensa a todas as outras mulheres que ousaram tentar ser alguma coisa e não foram tão bem sucedidas. Ou até foram, mas não o suficiente para serem comparadas a um homem.

E isso se reproduz também nas relações pessoais, sejam românticas ou de amizade ou de família. “Você não é como todas a outras.” = elogiofensa. “Confio em você como só confio em homens.” = elogiofensa. “Gosto de sair com você porque você bebe/conversa/arrota como homem, não tem frescuras de mulher.” = elogiofensa. “Só pego carona com você porque você dirige como homem.” = elogiofensa. São tantos exemplos diários que não caberiam aqui.

E eu já acreditei em tudo isso, que vergonha alheia de mim mesma! Já achei os professores homens os melhores, e não me lembro de uma professora que eu tenha admirado. Mesmo na faculdade de letras, onde, sei lá, 70% dxs professorxs são mulheres, nem lá, eu não admirava nenhuma professora. Ah! Tem a Carlinda! Mas, a Carlinda dá aula como homem! O que eu não me dava conta, e o mais patético disso tudo, é que eu mesma sou professora, porra! Ou seja, eu não admiraria a mim mesma se eu desse aula pra mim!

Eu já falei “só podia ser mulher” quando via uma má motorista. Mas, se fosse assim mesmo, por que então a maior parte dos acidentes e mortes no trânsito são causados por homens? Eu já acreditei que médico homem é melhor, mais competente, menos grosso, principalmente ginecologista! Não me dava conta que muitos são “menos grossos” porque tratam pacientes mulheres como criança. “Toma o remedinho direitinho pra não ficar dodói de novo, hein!” E muitos são gentis para depois abusar de suas pacientes desacordadas. E, como confiamos que são os melhores, acabamos colocando a culpa na própria mulher pelo abuso sofrido. Não pesquisei o número, mas podem apostar que a maioria dos erros médicos são cometidos por homens. Dos abusos, então, não precisa nem apostar, porque certamente devem ser uns 95% praticados por homens.

Também já acreditei que mulher não sabe escrever, e que escritores bons são os homens. A não ser que seja livro infantil. Livro infantil mulher escreve melhor mesmo. Afinal, uma mulher é quase uma criança. E a Virginia Woolf também é ótima, porque ela escreve como homem! A Clarice também. Não só na literatura, mas qualquer produção intelectual vinda de mulheres eu desprezava. Na faculdade de filosofia, professor falava que filosofia é coisa de homem, e eu achava graça e ria e repetia isso. Talvez por isso, subconscientemente, eu tenha migrado pras letras, área onde há predominância feminina (embora mulher não saiba escrever!). Aí, quando eu digo que passarei a ler mais autoras mulheres, me acusam de ter a mente fechada, de estar limitando minhas leituras. Não, gente. Eu estou AMPLIANDO minhas leituras, para incluir aquelas que eu sempre desprezei. Se um leitor qualquer só lê autores homens (sem nem perceber, já que a grande maioria dos autores são homens), ninguém jamais achará estranho ou limitador do seu horizonte. Mas, se uma mulher opta por conscientemente se dedicar mais à leitura de outras mulheres, ela é acusada de obscurantismo, de fanatismo, de vários -ismos que nos imputam diariamente. E eu nem disse que iria parar de ler autores homens de vez, imagina se eu tivesse tido essa audácia!

Matematicamente, só pode ter algo errado neste mundo. É uma questão de estatística: a maioria das meninas faz ballet. Mas, os grandes bailarinos e coreógrafos são homens. A maioria dos meninos faz judô ou futebol. E os grandes atletas também são homens. As mulheres cozinham as refeições do dia a dia. Mas, os grandes chefs são homens. Os homens dirigem no dia a dia. E os grandes corredores de fórmula 1 também são homens. As mulheres são as costureiras. Mas, os grandes desenhistas de moda são homens. O homens são os pedreiros que constroem as obras projetadas pelos melhores arquitetos, que também são homens. Em cada esquina, tem um salão de beleza com uma cabeleireira ou manicure como dona, e várias outras mulheres empregadas. Mas, os grandes hair stylists são homens, os grandes maquiadores também. As professoras, ralando lá na linha de frente, alfabetizando a criançada, são as desprezadas “professoras de 1a a 4a”. Mas, os grandes pedagogos são homens. E o ministro da educação também (nada contra o atual, que parece que será uma ótima escolha). Será que não tem nada de errado nisso? Será que nem naquilo que as mulheres praticam todo dia elas conseguem ser melhores? Ou será que os homens acabam se destacando mesmo nas áreas predominantemente femininas, porque a eles são dadas mais oportunidades, ou porque têm menos obstáculos no caminho que os farão interromper a carreira (filhos, cuidar dos idosos da família etc)? Ou será porque a mulher acaba muitas vezes limitada ao doméstico, ao local, enquanto homens têm oportunidade de alçar voos mais altos? Ou será porque, em geral, se confia mais em profissionais homens, porque crescemos acreditando que mulheres não são profissionais competentes, ou são muito emotivas, ou vão abandonar o trabalho, se os filhos ficarem doentes (ninguém se pergunta onde está o pai da criança ou por que ele não sacrifica sua carreira pelos filhos).


Eu sempre precisei dela e mendiguei a aprovação masculina. Eu tentava impressionar os professores através das provas e trabalhos, em que sempre me destaquei. Eu tentava fazer amizade com os meninos, embora tivesse muitas amigas, porque achava que nelas faltava alguma coisa. Eu aprendi a desprezar outras mulheres, achando que eu estava acima delas, que eu pensava “como homem”, que seria respeitada “como homem”. Pensando assim, eu aprendi a me desprezar, eu internalizei o ódio a mim mesma, ao internalizar o ódio às minhas iguais. Simultaneamente, eu tinha mais amigas meninas, porque tinha medo de fazer amizade com os meninos, mas quando eu fazia, era como se aquela fosse a amizade mais especial, mais verdadeira. E nenhuma durou muito. E a que durou virou casamento. Mas, talvez o maior arrependimento seja não ter sido amiga das minhas próprias irmãs. Sempre sonhei em ter um irmão, como se as irmãs não fossem suficientes, não me entendessem bem, ou fossem bobas demais pra eu ser amiga delas. Média e Pequena, peço desculpas, mas isso é assunto pra outro texto...  

Um comentário: