Eu já reproduzi
machismo, porque achava que estava acima disso, que ele não me
atingia. Que sendo uma mulher “diferente das outras”, que a
misoginia não era sobre mim, mas só sobre “as outras”. Que
bastava eu ter um senso de humor “masculino”, rir junto com os
homens, que as piadas não seriam sobre mim. Que bastava eu não cair
nas armadilhas que a maioria das mulheres caía, que eu poderia
escapar desse destino. Eu passei a vida inteira achando que dava pra
fugir dessa condição inexoravelmente imposta no berço (e hoje, até
antes, na ultrassonografia).
E por que tanta
negação? A gente cresce escutando que mulher não é amiga de
verdade, que os melhores amigos são os homens. Que não se pode
confiar em mulher, são traiçoeiras que, cedo ou tarde, te trairão,
contarão seus segredos, ou inventarão coisas sobre você. Não
viram o que a Eva fez com o coitadinho do Adão? Não fosse aquela
serpente e a cobra da Eva, Adão ainda estaria vivendo no paraíso.
Escutamos que, se um dia houver um homem entre você e sua amiga, que
a amizade acabará, mas que um homem jamais trocaria um amigo por uma
mulher. É a mulher que “rouba” o marido da outra, e não o
marido que trai sua esposa. Crescemos ouvindo isso e acabamos
acreditando.
Nos ensinam também que
os melhores professores são os homens, os melhores médicos também,
os melhores escritores, motoristas... Quando uma mulher se destaca em
qualquer uma dessas profissões, é porque trabalha “como um
homem”! “Fulana é ótima escritora, escreve como homem.” A
Clara já falou sobre isso, aqui:
http://lugardemulher.com.br/escrever-como-um-homem-nao-obrigada/.
Elogio torto. Elogiofensa. Ao dizer que você faz qualquer coisa
“como um homem”, isso não é elogio a você, é uma ofensa a
todas as outras mulheres que ousaram tentar ser alguma coisa e não
foram tão bem sucedidas. Ou até foram, mas não o suficiente para
serem comparadas a um homem.
E isso se reproduz
também nas relações pessoais, sejam românticas ou de amizade ou
de família. “Você não é como todas a outras.” = elogiofensa.
“Confio em você como só confio em homens.” = elogiofensa.
“Gosto de sair com você porque você bebe/conversa/arrota como
homem, não tem frescuras de mulher.” = elogiofensa. “Só pego
carona com você porque você dirige como homem.” = elogiofensa.
São tantos exemplos diários que não caberiam aqui.
E eu já acreditei em
tudo isso, que vergonha alheia de mim mesma! Já achei os professores
homens os melhores, e não me lembro de uma professora que eu tenha
admirado. Mesmo na faculdade de letras, onde, sei lá, 70% dxs
professorxs são mulheres, nem lá, eu não admirava nenhuma
professora. Ah! Tem a Carlinda! Mas, a Carlinda dá aula como homem!
O que eu não me dava conta, e o mais patético disso tudo, é que eu
mesma sou professora, porra! Ou seja, eu não admiraria a mim mesma
se eu desse aula pra mim!
Eu já falei “só
podia ser mulher” quando via uma má motorista. Mas, se fosse assim
mesmo, por que então a maior parte dos acidentes e mortes no
trânsito são causados por homens? Eu já acreditei que médico
homem é melhor, mais competente, menos grosso, principalmente
ginecologista! Não me dava conta que muitos são “menos grossos”
porque tratam pacientes mulheres como criança. “Toma o remedinho
direitinho pra não ficar dodói de novo, hein!” E muitos são
gentis para depois abusar de suas pacientes desacordadas. E, como
confiamos que são os melhores, acabamos colocando a culpa na própria
mulher pelo abuso sofrido. Não pesquisei o número, mas podem
apostar que a maioria dos erros médicos são cometidos por homens.
Dos abusos, então, não precisa nem apostar, porque certamente devem
ser uns 95% praticados por homens.
Também já acreditei
que mulher não sabe escrever, e que escritores bons são os homens.
A não ser que seja livro infantil. Livro infantil mulher escreve
melhor mesmo. Afinal, uma mulher é quase uma criança. E a Virginia
Woolf também é ótima, porque ela escreve como homem! A Clarice
também. Não só na literatura, mas qualquer produção intelectual
vinda de mulheres eu desprezava. Na faculdade de filosofia, professor
falava que filosofia é coisa de homem, e eu achava graça e ria e
repetia isso. Talvez por isso, subconscientemente, eu tenha migrado
pras letras, área onde há predominância feminina (embora mulher
não saiba escrever!). Aí, quando eu digo que passarei a ler mais
autoras mulheres, me acusam de ter a mente fechada, de estar
limitando minhas leituras. Não, gente. Eu estou AMPLIANDO minhas
leituras, para incluir aquelas que eu sempre desprezei. Se um leitor
qualquer só lê autores homens (sem nem perceber, já que a grande
maioria dos autores são homens), ninguém jamais achará estranho ou
limitador do seu horizonte. Mas, se uma mulher opta por
conscientemente se dedicar mais à leitura de outras mulheres, ela é
acusada de obscurantismo, de fanatismo, de vários -ismos que nos
imputam diariamente. E eu nem disse que iria parar de ler autores
homens de vez, imagina se eu tivesse tido essa audácia!
Matematicamente, só
pode ter algo errado neste mundo. É uma questão de estatística: a
maioria das meninas faz ballet. Mas, os grandes bailarinos e
coreógrafos são homens. A maioria dos meninos faz judô ou futebol.
E os grandes atletas também são homens. As mulheres cozinham as
refeições do dia a dia. Mas, os grandes chefs são homens. Os
homens dirigem no dia a dia. E os grandes corredores de fórmula 1
também são homens. As mulheres são as costureiras. Mas, os grandes
desenhistas de moda são homens. O homens são os pedreiros que
constroem as obras projetadas pelos melhores arquitetos, que também
são homens. Em cada esquina, tem um salão de beleza com uma
cabeleireira ou manicure como dona, e várias outras mulheres
empregadas. Mas, os grandes hair stylists são homens, os
grandes maquiadores também. As professoras, ralando lá na linha de
frente, alfabetizando a criançada, são as desprezadas “professoras
de 1a a 4a”. Mas, os grandes pedagogos são homens. E o ministro da
educação também (nada contra o atual, que parece que será uma
ótima escolha). Será que não tem nada de errado nisso? Será que
nem naquilo que as mulheres praticam todo dia elas conseguem ser
melhores? Ou será que os homens acabam se destacando mesmo nas áreas
predominantemente femininas, porque a eles são dadas mais
oportunidades, ou porque têm menos obstáculos no caminho que os
farão interromper a carreira (filhos, cuidar dos idosos da família
etc)? Ou será porque a mulher acaba muitas vezes limitada ao
doméstico, ao local, enquanto homens têm oportunidade de alçar
voos mais altos? Ou será porque, em geral, se confia mais em
profissionais homens, porque crescemos acreditando que mulheres não
são profissionais competentes, ou são muito emotivas, ou vão
abandonar o trabalho, se os filhos ficarem doentes (ninguém se
pergunta onde está o pai da criança ou por que ele não sacrifica
sua carreira pelos filhos).
Eu sempre precisei dela
e mendiguei a aprovação masculina. Eu tentava impressionar os
professores através das provas e trabalhos, em que sempre me
destaquei. Eu tentava fazer amizade com os meninos, embora tivesse
muitas amigas, porque achava que nelas faltava alguma coisa. Eu
aprendi a desprezar outras mulheres, achando que eu estava acima
delas, que eu pensava “como homem”, que seria respeitada “como
homem”. Pensando assim, eu aprendi a me desprezar, eu internalizei
o ódio a mim mesma, ao internalizar o ódio às minhas iguais.
Simultaneamente, eu tinha mais amigas meninas, porque tinha medo de
fazer amizade com os meninos, mas quando eu fazia, era como se aquela
fosse a amizade mais especial, mais verdadeira. E nenhuma durou
muito. E a que durou virou casamento. Mas, talvez o maior
arrependimento seja não ter sido amiga das minhas próprias irmãs.
Sempre sonhei em ter um irmão, como se as irmãs não fossem
suficientes, não me entendessem bem, ou fossem bobas demais pra eu
ser amiga delas. Média e Pequena, peço desculpas, mas isso é
assunto pra outro texto...
http://mboiuna.tumblr.com/post/131444373348/elogiofensas-lidia-cordeiro
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