Liberdade. Igualdade.
Fraternidade. Já perceberam o quão machista é esse lema? Não?
Talvez por não saberem, ou não se atentarem para o fato de que
fraternidade diz respeito a irmãos. Homens. Ou seja, homens se unem
em torno de um ideal, homens mudam o mundo fazendo a revolução
francesa. Mulheres são desunidas e só servem pra dizer que, se o
povo não tem pão, que coma brioche. A palavra pra mulheres que se
unem, pra irmandade entre mulheres, é SORORIDADE. Não, você não
vai encontrá-la nos dicionários. Ela nem existe no português
“oficial”. Ah, mas, no português, generaliza-se no masculino,
logo fraternidade inclui mulheres também. Sim, mas isso só reflete
como nossa língua é machista, ainda mais que o inglês, por
exemplo, em que não se generaliza no masculino. Mas, mesmo no
inglês, a palavra “sorority” só existe no dicionário pra se
referir às repúblicas universitárias femininas. Já “fraternity”
é usada pra repúblicas masculinas E TAMBÉM pra se referir ao
sentimento de irmandade. ENTRE BROTHERS. IRMÃOS. HOMENS.
Parece uma bobagem. É
“só” uma palavra. Não, não é só uma palavra. A língua ajuda
a construir o mundo. E também o reflete. Não é à toa que esquimós
têm sei lá quantas palavras pra dizer “branco”. Não é à toa
que as línguas ocidentais – e suponho que as orientais também –
reflitam a “falta de união” entre mulheres. Então, é porque
mulheres são desunidas mesmo, oras! Porque já nascem assim,
invejosas, ciumentas, sem capacidade de se mobilizarem pelo bem
comum, egoístas, só pensam em si! Não, vamos tentar de novo.
Não há nada na
biologia feminina que leve à conclusão de que mulheres são assim
mesmo. E muito menos há algo natural que justifique que homens são
mais unidos. Homens são criados, socializados, pra serem parceiros,
amigões, “irmãos”. Observei outro dia que meu marido chama
qualquer homem de irmão, desde o entregador de pizza até o próprio
irmão mesmo. Nunca vi mulher chamar outra de irmã fora do feminismo
ou da própria família. Ou de um convento. Mulheres são
socializadas pra competirem entre si, pra se odiarem. E por quê?
Pelo prêmio máximo: o omi! Meninas aprendem desde cedo que “fulana
roubou o marido da cicrana”. Já viram alguém dizendo que “fulano
roubou a mulher de cicrano”? Não, nesse caso, dizem: “a
vagabunda da beltrana trocou o fulano pelo cicrano, melhor amigo
dele”. E a amizade nem é abalada, afinal, irmãos não se separam
por causa de mulher. Mas, mulheres entram em guerra por causa de omi.
Há dezenas de comédias americanas sobre isso, sobre mulheres de
todas as idades. E há também Meninas Malvadas, que, olhando
pro cartaz, parece só mais uma comédia imbecilizante americana, e
se não tivesse o dedo mágico de Tina Fey, provavelmente seria
mesmo.
No filme, a
recém-chegada personagem da Lindsay Lohan, que nunca tinha pisado
numa escola antes, pois tinha sido educada em casa, só se enturma
com a Janis e o amigo gay dela (não me perguntem os nomes dos
atores!), que também são deslocados de todos os outros alunos. Eles
bolam um plano pra Lindsay se enturmar na panelinha da personagem da
Rachel McAdams, linda, magra e loira. Da panelinha fazem parte a
Claudia, de Party of Five, e a Amanda Seyfried (não me
perguntem os nomes das personagens!). Basicamente, elas são as
meninas mais lindas da escola, desejadas por todos os garotos, e
odiadas por todas as meninas. E o plano levaria os três amigos a
desmascará-las. Depois de muito vai e vem, a Lindsay se enturma, mas
acaba gostando da coisa, e abandona os verdadeiros amigos, além de
se tornar a Abelha Rainha, líder da panelinha, depois de fazer a
antiga rainha engordar e se tornar “largada”. E ser
automaticamente largada pelas amigas e todos os admiradores. Acontece
mais um monte de coisa, a Lindsay percebe que, se tornando a rainha,
não é menos ruim que a antiga, o que a leva a compartilhar a coroa
de rainha do baile com todas as meninas. Literalmente. Ela quebra a
coroa e distribui os pedaços. Happy ending.
(Vocês precisam parar de se referirem umas às outras como vadias e putas. Isso só torna ok para os caras chamarem vocês de vadias e putas.)
O filme não é mais um
besteirol americano, embora se pareça com um visualmente. É um
filme de mulheres, sobre mulheres e com uma mensagem clara pras
mulheres: ao lutarem umas contra as outras, vocês só estão lutando
contra si mesmas. Ao chamar outras meninas de gordas, você se coloca
como alvo pra ser chamada de qualquer coisa relativa ao seu peso. E,
mesmo que você esteja “em forma”, vão dar um jeito de falar,
vão dizer que está magra demais, que é anoréxica; se for
musculosa demais, dirão que parece um homem etc. Não tem como
fugir. Nem a Gisele Bündchen escapa. Ao chamar outras meninas de
vadias, você só abre as portas pra julgarem sua vida sexual. E, se
você não tiver uma, pra tirarem sarro da falta dela. Ao chamar
outras meninas de “loiras burras”, você permite que a
inteligência de uma mulher seja avaliada de acordo com a cor do
cabelo e não com suas habilidades e talentos. E não adianta pintar
o cabelo de preto! Porque loira burra pode ser morena, ruiva,
careca...
Falando em filmes,
outro em que reina a SORORIDADE é Malévola. Depois de
passado o incômodo inicial com aquele visual modernoso
computadorizado, adorei o filme. Malévola é uma fada que se torna
amiga, e depois namorada, de um humano. Ele a engana e arranca-lhe as
asas pra dá-las ao rei, inimigo de Malévola. Ela, traída e sem
asas, se torna amarga e vingativa, colocando um feitiço na filha
recém-nascida do ex, agora rei. Pelo tal feitiço, a menina viveria
linda e feliz e saudável até os dezesseis anos, quando espetaria o
dedo em um roca de fiar (se não fosse essa história, nem saberíams
mais o que é isso!) e dormiria um sono profundo, até que recebesse
um verdadeiro beijo de amor. Na verdade, o feitiço é capcioso:
Malévola sabe que não existe verdadeiro beijo de amor, e o pai de
Aurora também sabe, logo sua filha estaria condenada a dormir pra
sempre. Aí, o pai, muito preocupado com a segurança da filha e
ignorando completamente a mãe da menina, manda a criança pra uma
casa no bosque, pra ser criada por três fadas completamente
incapazes de cuidar de uma criança, pra dizer o mínimo. No fundo,
sua preocupação maior é não permitir que Malévola vença, ele
está pouco ligando pra segurança da menina, já que as fadas
poderiam ter acabado levando-a à morte muito antes dos dezesseis
anos! Até aí, é a clássica história da Bela Adormecida.
Mas, a partir daí, a
coisa muda. A princípio, é Malévola quem salva Aurora
constatemente, sempre apenas pra depois poder ver seu feitiço se
completar, mas Aurora acaba acreditando que Malévola é sua fada
madrinha, e a fada não a desmente. Malévola acaba gostando da
menina, apesar do pai, mas não consegue desfazer seu próprio
feitiço. A profecia se cumpre e Aurora cai no sono, quando já havia
descoberto que seu pai estava vivo e sabendo do feitiço. Nessa
altura, a mãe da menina já morrera. Assim, as três fadas-patetas
são chamadas novamente pra cuidar da menina, agora em seu quarto no
castelo. Aí vem a melhor cena do filme. Aparece um príncipe-bocó
de um reino vizinho e as fadas-patetas acham que é a salvação da
menina. Na verdade, Malévola o levara até o castelo, achando que
seria a salvação, apesar de não acreditar em beio de amor
verdadeiro. As fadas-patetas empurram o príncipe pra cima de Aurora,
ele mal tem tempo de dizer que não pode beijá-la, pois mal a
conhece. E nesse ponto eu já tava p da vida de ver essa cena de
beijo sem consentimento. Mas, o que vem a seguir vale a pena. O
príncipe beija Aurora, nada acontece, as três fadas (que a essa
altura já ganharam minha simpatia) o jogam, literalmente, pra fora
do quarto. Ele cai no chão com aquela cara de bocó que nem entendeu
o que tinha acontecido. Aí entra Malévola no quarto, pra pedir
perdão a Aurora, e é seu beijo que a acorda. Alguns imbecis pelo
mundo acharam que a cena era lésbica! Acordem, seus tarados! O beijo
não é lésbico, é o beijo da SORORIDADE. É o beijo de uma mulher
que, por raiva de um homem, deseja mal a outra mulher que não tem
nada a ver com isso, nesse caso, que não era nem nascida. É um
beijo de arrependimento, ao se dar conta da tamanha burrada que havia
feito. Bom, Aurora acorda, Malévola recupera suas asas, mata o rei,
e Aurora passa a governar o reino. Happy ending.
No entanto, nem tudo
são flores. Ambos os filmes são frutos de Hollywood, que descobriu
agora o filão do feminismo e resolveu capitalizar em cima. Não
podemos perder isso de vista. Além disso, ou melhor, talvez por
isso, concessões são feitas em ambos os filmes e a pior delas é:
tudo ainda gira em torno da busca de um parceiro pela mulher. Em
Meninas Malvadas, além desse título duvidoso, a Lindsay e a
Rachel disputam o macho, um tal de Aaron, de quem eu nem lembro no
filme, com sinceridade. Mas, é por ele que a disputa das duas começa
e, no final, a Lindsay fica com ele. É o prêmio por ela ter sido
uma boa moça, por ter dividido a coroa de rainha com todas etc. Em
Malévola, o príncipe-bocó aparece na cena final, sorrindo
pra Aurora, e ela responde com um sorriso. Fica implícito que eles
ficarão juntos. Acredito que ambos os filmes seriam muito melhores e
coerentes sem essa concessão. E, acredito que precisamos de filmes
que tenham pontos de partida diferentes. Ambos os filmes partem do
pressuposto machista tradicional que: toda mulher só será feliz com
um homem ao seu lado. E ambos fazem concessões em relação a isso
no final. Seriam melhores se 1. não fizessem essas concessões; e 2.
melhores ainda se partissem de outro pressuposto. Mas, Hollywood
precisa agradar a todos, inclusive as moçoilas casadoiras que ainda
acreditam em príncipe encantado e amor romântico. De qualquer
forma, é um começo. Precisamos de mais filmes assim, ainda que eles
só estejam querendo nosso dinheiro. Por coincidência, ontem estava
passando a animação da Bela Adormecida,
a original, de 1959. Crescer vendo mulheres retratadas daquela
maneira é e foi prejudicial pra muitas de nós, mas felizmente as
próximas gerações parece que terão melhres modelos a seguir, se o
filão feminista continuar dando dinheiro, claro. Eu espero que sim.
As meninas merecem. Mas, não adianta nada, se paralelamente não se
ensinar às meninas que elas são irmãs e não inimigas. Precisamos
construir conscientemente para nós o que os homens constroem
espontaneamente desde o berço, a tal “brotheragem”, mas com seu
nome certo: SORORIDADE.
Também sei que a
SORORIDADE não é assim tão linda quanto mostram os filmes, que há
muito a ser problematizado. Ambos os filmes são feitos por pessoas
brancas, com quase apenas atores brancos, num mundo classe média
alta. Mas, é um começo. E isso é assunto pra outro texto...


Amei o texto! Muito bem colocado a questão da sororidade vs fraternidade e a análise dos filmes... Escreva mais vezes :(
ResponderExcluirMe ajudou muito no meu trabalho, parabéns moça!
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